O mundo de amanhã

Posted on Abril 7, 2011. Filed under: Futuro | Etiquetas:, , , , , , , , |


Partilho com vocês algumas ideias e receios sobre o que o futuro nos reserva, e das quais devemos esperar consequências importantes para a nossa forma de encarar o consumo. E as vossas ideias sobre o mundo de amanhã? Adoraria que partilhassem!

Aceitam o desafio?

Planear Online, Fazer Offline

A sociedade está a mudar – e a evolução da Internet nos últimos anos tem causado mudanças nos padrões de consumo sem precedentes. O mundo virtual está a ficar maior.
Até muito recentemente, as pessoas confiavam em tertúlias de café e conspiram para explorar as tendências de amanhã, ou, num acto isolado, usavam guardanapos de papel dos restaurantes, para registar as ideias nascidas de faíscas de criatividade. Para decidir uma compra, tínhamos de ir a casa de um amigo para pedir conselhos, algumas idas às lojas, ler revistas ou jornais, ter ouvidos prontos para pegar a última palavra do boca em boca, estar atento a tudo o que era anunciado. Nós não tínhamos uma central de tomada de decisão – mas sim vários: dispersos geograficamente e conceptualmente. Com a banalização da internet, os centros de decisão fundiram-se num só: um imenso quartel –general online.
Hoje, nós planeamos online e executamos offline. A Internet fornece todas as informações sem sairmos da nossa sala, e só deixa de ser usada quando a demanda física nos ultrapassa. A Internet é o acampamento base, onde a organização é construída, e as decisões são tomadas. O êxodo de um mundo offline está apenas no início…

 

Marcas Brancas

As marcas brancas são já uma realidade incontornável em muitos mercados, conquistando share ano após ano. Nos US, ¼ dos produtos vendidos nos supermercados são marcas próprias. Na Europa, o share das marcas brancas é revelador (imagem e dados: PLMA – Private Label Manufacturers Association). As marcas próprias já ultrapassaram há muito a fase da experimentação, estando agora claramente na fase madura da compra repetida e fidelização. E se pensam que as marcas brancas apenas se popularizaram com a crise mundial, tomem atenção: há mais de 5 anos que o seu share está em crescendo. Isto significa um crescimento sustentado anterior à crise; a crise apenas acelerou a adopção dessas marcas. São marcas mais baratas e de menor qualidade? Testes “em blind” realizados pelo mundo fora, mostram que as marcas brancas de referência não ficam a dever nada às marcas de fabricante. E até há no mercado marcas brancas Premium, pelo que se acabaram as desculpas.

Mas vão dominar ainda mais. A desigualdade social, a racionalização dos meios de subsistência, a nova lei que a actual crise ditou (sermos mais comedidos nos nossos gastos, aproveitando tudo ao máximo, quer na nossa vida pessoal como nas empresas), a escassez de alimento a nível mundial e o império das empresas de distribuição vão ditar as suas regras sobre as marcas de fabricante, mais caras e menos flexíveis. As marcas próprias terão sempre uma enorme vantagem: elas não necessitam de rotas de voo (leia-se distribuição): elas já estão nos aeroportos. Também pouco precisam de publicidade.

Se elevarmos as marcas brancas a um novo patamar, poderemos dizer que no futuro existirão marcas “fabricantes” (que manterão o low profile, mas que hão-de sobreviver), marcas “de distribuição” (médium profile e estáveis) e as marcas de fabricante de referência (high profile para manter um share confortável). O fenómeno das marcas brancas tem um modus operandi próprio: roubam mais facilmente mercado às marcas com a imagem mais descaracterizada ou com um posicionamento menos claro. Daí eu retirar da equação as marcas de fabricante e vaticinar que apenas as marcas de fabricante de referência irão singrar. E as marcas fabricantes dependerão mais das empresas de distribuição (serem escolhidas por estas para fabricarem os seus produtos, o que não significa que sejam as marcas de referência no mercado…) do que do seu marketing. Se esta visão estiver certa, e se o império das grandes cadeias de distribuição se acentuar, há o risco de as marcas que restam se verem numa encruzilhada: ou lutam para serem fabricantes da distribuição ou estão por sua conta e risco. No limite, o marketing como o conhecemos pode sofrer um impacto negativo muito forte: apenas restará a distribuição e as marcas de fabricante de referências para anunciar os seus produtos ou delinear estratégias de marketing. Todavia – e desculpem a audácia desta previsão – a economia mundial será sacudida quando algumas marcas “distribuidoras” não corresponderem às cadeias de supermercados e grossistas a que estamos habituados. Passo a explicar: o que impede marcas globais como Google, Facebook ou Twitter de “emprestar” a sua imagem a produtores anónimos e assim dominarem o mercado? O mundo virtual tenderá cada vez mais a estabelecer alicerces no mundo offline. Não se espantem se um dia encontrarem à venda Google Flakes, Facebook Deos ou, inesperadamente, olharem para o céu e avistarem um avião da Air Twitter.

Direitos, Patentes & Pirataria

Há que dizê-lo: quanto mais restritivas são as medidas para controlar a Internet, maiores são as contra forças para a anarquizar. A França abriu na Europa as hostilidades com as suas medidas anti-pirataria, com o fim de proteger direitos autorais. Os resultados são pouco ou nada visíveis. Por um lado, sabe-se que a pirataria trás prejuízos incalculáveis às empresas e desvanecem o esforço de criação; por outro, os meios de defesa contra os downloads ilegais serão sempre insuficientes contra a armada de estratagemas e opções de partilha. As próprias patentes serão também uma miragem, na minha opinião: a quantidade de pessoas tentadas a usar tecnologia patenteada por outros será imensamente maior do que a capacidade de detecção das irregularidades e reposição da justiça. Uma coisa é certa: a manterem-se as coisas, o tecido empresarial deverá começar a adaptar-se a um contexto em que nada pode ser protegido. Criar algo e ganhar royalties durante anos, privando os outros do seu uso parece-me justo, mas pouco exequível. A nova dinâmica passará por criar algo e vendê-lo ao máximo… enquanto outros não o copiam. A partir daí, há que ter já na forja outro produto para recomeçar o ciclo. Na minha perspectiva, isto poderia ser denominado de “Marketing Acelerado”.

Eu, Monitorizado

Behavioral advertising. Genius (Itunes Store), monitorização dos sinais vitais de um paciente, que são enviados por internet para um “hospital” virtual (de forma a prever e acautelar situações graves de saúde num futuro próximo), realidade aumentada que reage às nossas preferências, Skis que monitorizam o movimento do corpo para depois aperfeiçoar a técnica. Apps que sugerem receitas baseadas nos contornos do nosso rosto (não acredita? Veja o Kraft’s Ifood Assistant no Google).

Há ainda software que avalia o tom emocional dos conteúdos de e-mail (veja por si em http://www.tonecheck.com/) ou projectos de monitorização como o que as Nações Unidas está a levar a cabo, que explora o campo cada vez mais importante da monitorização de dados em tempo real (http://www.psfk.com/future-of-real-time).

Estes são alguns exemplos que deverão ser explorados até à exaustão nos anos seguintes. O consumidor que é monitorizado em tempo real, permitirá uma interacção bilateral com outras pessoas ou empresas – e estas últimas disporão de meios suficientes para se antecipar às necessidades dos indivíduos. Não se trata de responder às necessidades, mas sim de proactividade na resposta a necessidades que ainda não existem… mas vão existir.

Actualize-se, ou Morra

Publicidade, jornais, enciclopédias, livros técnicos… tudo aquilo que for perecível no espaço de 24 horas (em muitos contextos, menos que isso), ao nível da informação ou comunicação, estará numa situação vulnerável. Apenas a arte (musica, ficção, pintura, cinema, fotografia…) terá o privilégio do tempo e da intemporalidade.

Conectados: a Toda a hora, em Qualquer Lugar

Após ter sido anunciada a saída de Eric Schmidt do cargo de CEO da Google, há que recordar as suas sábias palavras: no futuro todos estaremos conectados, a toda a hora e em qualquer lado. Acredito que o futuro nos reserva algumas mudanças nos padrões de consumo, baseadas na conectividade. Uma delas poderá ser uma regra: “poupança nos procedimentos”. Há bem pouco tempo para ouvir música no carro, fazia-se algo assim: Itunes em casa > Gravação de um CD > Ouvir música no carro através do CD. Daqui a pouco tempo, os procedimentos intermédios serão pura e simplesmente desnecessários, sendo antes algo do tipo: Itunes no carro. Mais exemplos menos óbvios?

Agora: faz-se um filme > Grava-se em bobine > Projecta-se numa sala de cinema

Futuro: Na sala de cinema o projectista liga a Internet e projecta via streaming

Agora: Vai-se a um museu > Paga-se na bilheteira para ter um audio guide > Aprecia-se arte e ouvem-se as explicações

Futuro: Vai-se ao museu, ligam-se os headphones ao smartphone e este, via GPS, desbloqueia o sistema de áudio-guia do museu

Agora: Compra-se um guia da Lonely Planet > Viaja-se para uma cidade > explora-se a cidade com a ajuda do Guia

Futuro: Viaja-se para uma cidade > tira-se o Ipad da mala e o sistema wi-fi da cidade “descarrega” automaticamente no tablet a informação do que existe num raio de 500m à nossa volta (ps: e ainda assinala locais com preços low cost!)

O Império dos Apps

A Apple trouxe os “apps” (aplicações) para a ordem do dia e fez disso uma vantagem estratégica – hoje copiada por muitas empresas de tecnologia. O que estes Apps fazem é permitir que o nosso mundo digital seja personalizado, ao mesmo tempo que incorporam funções úteis para as nossas necessidades diárias, quer pessoais, quer profissionais. É como construir uma casa com blocos de diferentes tipos, de forma a torná-la mais “nossa”.

Esta ideia dos blocos, na minha opinião, pode moldar a arquitectura de outras áreas, dando-lhes nova vida e até um ar trendy. As universidades do futuro dificilmente aguentarão programas curriculares estáticos. À volta de (poucas) disciplinas base, os cursos poderão ter “slots” para encaixar blocos (leia-se outras disciplinas) de forma a que o estudante siga algo mais próximo daquilo que pretende no futuro. Estes apps certamente serão na modalidade e-learning. As empresas de serviços já há muito tempo que disponibilizam a sua oferta em pacotes, que os clientes podem contratar como se estivessem a confeccionar a sua própria pizza self-service. As empresas que fornecem projectos e serviços pré-definidos e de larga amplitude certamente terão de desmontá-los em unidades mais pequenas, dando maior possibilidade de escolha aos clientes. Um fabricante de automóveis fornece algumas opções especiais (“extras”), mas 90% do carro vem standard de fábrica – se quisermos alterar mais coisas, teremos de recorrer à marca ou a terceiros e pagar a dobrar. No futuro, penso que os carros estarão à venda com 50% de estandardização: o resto será o cliente a construir à “la carte”. Não se venderão carros, mobília, casas ou mesmo aparelhos como se vendem hoje em dia. Vender-se-ão estruturas, que os consumidores adornarão com as opções pré-concebidas, e em larga quantidade, que os fabricantes disponibilizarão.

A Luta Pelo Espaço

Em poucos anos seremos 7 biliões de pessoas. Faltará terra arável nos campos e espaço nas cidades. Mas há outros domínios em que o espaço tem uma importância menos consciente, e em que as lutas para o garantir não podem ser menosprezadas. A quantidade de endereços de IP disponíveis está a atingir a ruptura. A Internet está a ficar sem espaço!  Os processadores precisam de ser cada vez mais poderosos no menor volume possível. A Federal Communications Commission (FCC) americana, espera abrir o “espaço branco” deixado vago com a passagem da TV analógica para a digital – e várias empresas de peso já estão na corrida para disputar esse espaço. A nanotecnologia espalha a miniaturização. Espaço: um tesouro sempre valioso.

Parcerias

A colaboração estratégica entre marcas será uma das minas de ouro da gestão. Joint ventures, open innovation, crowdsoursing ou open source technologies são já realidade para algumas empresas, mas o seu poder será superior quando aumentar o número de adeptos.

As parcerias permitem que os membros unam sinergias, de modo a produzir com mais qualidade e de forma mais inovadora. Talvez a concorrência no futuro não se avalie ao nível das empresas, mas sim ao nível dos aglomerados estratégicos que estas vão criando entre si, formando alianças. Ou se está numa, ou está-se sozinho. E, ao contrário de empresas individuais, qualquer revés numa destas alianças terá um impacto global na economia e nos consumidores, dado o peso que apresentam.

A Década dos Jogos

Deixo para o fim a minha maior aposta, aquela que julgo poder alterar o panorama social e tecnológico do planeta nos próximos anos. Se eu pudesse dizer algumas palavras a Maslow (o criador da famosa Pirâmide das Necessidades), certamente lhe diria que o ser humano tem necessidade de jogar e que esse driver motivacional deveria constar da sua teoria. O ser humano é competitivo por natureza, e ganhar é uma condição que lhe está nos genes – quem sabe se não lhe terá garantido a sobrevivência até aos dias de hoje. O jogo tem consequências funestas a nível social e psicológico, especialmente quando se é viciado. Há quem gaste tudo em jogos de sorte e azar; há quem jogue no computador 20 horas por dia e não consiga sequer descansar ou desenvolver outras competências.

Em finais de 2009, o videojogo “Call of Duty 2 – Modern Warfare bateu o record de vendas no primeiro dia de lançamento, obtendo 310 milhões de dólares de lucro só nos EUA e na Grã-Bretanha. A novidade é que isto representa as 24 horas mais lucrativas de qualquer acção de entretenimento, ultrapassando mesmo a todo-poderosa indústria norte-americana de cinema. Os dados estavam lançados (passe a expressão).

A Apple e a plataforma Android da Google seriam a mesma coisa sem os jogos? Para os milhões de fãs do Facebook que gostam de jogar, como seria se ficassem de um dia para o outro sem Farmville? E o que seria de toda a indústria que evolui com o jogo – Playstation, Nintendo, Xbox?

Tudo isto nos diz o quanto o jogo é, afinal de contas, extremamente poderoso – como uma massa de energia sempre pronta a ser descarregada. Mas essa enorme massa de energia está a ser mal aproveitada: mesmo sem saber estatísticas, apostaria que 95% desta energia avassaladora está a ser usada… para jogar. “Jogar” não tem de ser um fim em si mesmo para tanta energia. Quando se joga, está-se a alimentar o nosso lado hedónico, competitivo, que nos diz que conseguimos ultrapassar dificuldades e dilemas, a nossa face oculta que nos leva a tentar derrotar os outros – mas normalmente não se está a criar algo construtivo.

Tal como a matéria se pode transformar em energia e vice-versa, também o jogo pode transformar-se em muitas coisas, dando utilidade a esse recurso. Pode ser transformado em educação (ex: jogos educativos), em mudanças de atitude (ex: perder peso, sendo os procedimentos integrados num jogo), em simuladores de economia (em que equipas competem a gerir uma empresa virtual), em retardadores de Alzeimer (jogos que ajudam o cérebro a manter-se activo), em aplicações matemáticas, em estratégias de marketing, em flashmobs, no controle do ritmo biológico, no fitness, dos programas de televisão, na posologia medicamentosa para pessoas doentes e em tantas outras dimensões que possamos imaginar. Imbuir uma actividade com a dinâmica de jogo pode significar a diferença entre realizar uma actividade ou realizá-la com gosto. A capacidade motivacional do acto de jogar, a tal “energia”, potencia a nossa atenção na execução de tarefas, aumenta a nossa capacidade de explorar os problemas, dá um impacto emocional ao que fazemos e, muito interessante, é auto-rewarding.

Transformar os jogos em conceitos que estruturam emocionalmente as actividades do nosso dia-a-dia será, num futuro não muito distante, a galinha dos ovos de ouro de consultoras, webmasters, criadores de software, coaching, entidades educativas e comunitárias, entre muitas outras. Deixemos de jogar jogos. Daqueles de jogar.

Francisco Teixeira

Consumer Behavior Specialist

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As opiniões expressas neste blogue, embora suportadas por conhecimento prático e conhecimentos científicos, não passam disso mesmo: opiniões.

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3 Respostas to “O mundo de amanhã”

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soberbo, credível, muito educativo. Um milhão de parabéns

Obrigado, José!!

Penso que estes exercícios são importantes no sentido de fazer a ponte entre o presente e o futuro, e algumas destas ideias acredito virem a ser consolidadas daqui a uns anos.

Abraço
Francisco

[…] portentoso e pouca vontade de abrandar o passo. Na continuidade de um outro post deste site (ver post), o que pretendo é apresentar como os jogos vão para além do acto de jogar em si, criando um novo […]


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