O Futuro Orgânico

Posted on Maio 2, 2011. Filed under: Futuro | Etiquetas:, , , , |


Chego a casa depois do meu jogging de fim de tarde. Abro a porta sem tocar nela pois estou suado e rapidamente me dirijo à cozinha, para matar a sede. Conforme caminho pela casa, as luzes vão-se acendendo, as persianas descendo e a música liga-se sozinha. Foi boa ideia ter implantado aquele chip subcutâneo há uns anos. Contém todas as informações necessárias para que os diferentes dispositivos da casa me presenteiem sem eu ter de fazer nada. Estão lá as minhas preferências e configurações, que posso alterar quando quiser no meu cloud computer da Asus.

Tomo um duche à temperatura programada e o chuveiro acompanha os meus movimentos para uma melhor higiene. Visto a minha roupa high-tech  e ordeno por voz à “Forma” que se transforme num sofá – a “Forma” é uma massa especial que adopta o design e a configuração que eu quiser, o último gadget da IKEA para este verão. Decido jogar às corridas de automóveis com o holographic dreaming da Sony e a “Forma” trepida como se estivesse sentado num carro de rally.

É bom ver publicidade à Heineken no jogo porque gosto da garrafa verde. O meu chip bloqueia toda e qualquer intromissão na casa de publicidade não solicitada – apenas surge a que se adequa ao perfil que configurei. O meu smartphone faz-me o mesmo pelas ruas, apenas me são mostrados itens de realidade aumentada que correspondam ao que eu gosto. De vez em quando dou-lhe rédea larga, para absorver o que de novo vai acontecendo.

Hoje trabalhei em casa – já quase ninguém vai a escritórios, pois o teletrabalho arrumou a questão. O petróleo está a 50 dólares por barril, pois as pessoas já não usam tanto o carro para o trabalho, mas antes para lazer. Grande parte da tecnologia que tenho em casa é chinesa ou veio de lá – a China asfixiou as grandes potências pois tem as maiores jazidas de matérias-primas usadas em tecnologia.

O meu Ipad 12 recebeu uma mensagem a dizer que tenho correio. É um questionário de uma empresa para responder. Por acaso fui eu que desenvolvi a plataforma do questionário pois trabalho na área. Depois de anos e anos de questionários e inquéritos estáticos e chatos, acabei por criar um questionário mutante: conforme as respostas do inquirido, as perguntas seguintes são alteradas em tempo real para que a pessoa responda apenas àquilo que está na sua linha de raciocínio e referências, obtendo um questionário mais fluído e fiável. O que se obtém são questionários com perguntas e respostas adaptadas ao indivíduo: ao serem processadas com as respostas de outros milhões de pessoas, o software volta a agrupar os dados e cria perguntas estáticas… com respostas diferenciadas. É uma tecnologia que nasce da anarquia mas que volta à ordem, estática, que os questionários já tinham.

Sou o meu próprio patrão, pois hoje é mais fácil ser-se independente do que empresa. As aplicações são todas gratuitas e intuitivas. Os programadores competem para criar soluções que os não-programadores possam usar. Ainda assim, tenho algumas saudades dos fotógrafos, dos jornalistas, dos tradutores… foi tudo embora a partir do momento em que o “Do it yourself” se juntou às aplicações inteligentes e ao freeware sem necessidade de conhecimentos de programação. Aliás, gosto muito de ver as notícias do meu bairro no canal online do meu vizinho. Por falar nisso, acho que há um churrasco amanhã algures.

Graças a Deus também não preciso de fazer downloads ilegais de música e filmes: os direitos de autor acabaram há muito tempo, pois as grandes empresas concluíram que a protecção daquilo que faziam era tão eficaz como suster água com uma peneira. Muito por isso, as grandes empresas desmontaram-se em várias empresas mais pequenas e flexíveis: as suas marcas duram pouco tempo e procuram os nichos fugidios. Conceitos de marketing como “positioning” deixaram de fazer sentido: posicionar uma marca era difícil pois havia sempre uma marca (ou várias) onde pretendíamos colocar a nossa. Os grandes lucros passaram a ser pequenos lucros e os homens-empresa prevaleceram com a ajuda da tecnologia. O comércio tradicional foi substituído por Centros Comerciais Spa & Boutique: vai-se ao shopping passear, fazer banho turco, assistir a publicidade, ter experiências de marketing sensorial e ver as marcas, as suas novidades. É como um salão automóvel dos anos 2000: mostram-se as novidades, bebe-se um café e praticamente não se compra nada: para isso, uso o meu Ipad 12.

A quantidade de informação digital é colossal, e os analistas e sistemas informáticos gastam grande parte do tempo a estruturá-la, de forma a colocar no mercado software que mastigue a informação necessária aos vários sectores da economia. Aquilo que a internet cria e dilui é aquilo que os analistas recolhem e agregam em pacotes de informação customer oriented. A Lego é a grande sensação este ano nesta vertente. Quem imaginaria tal coisa em 2011…

A arte de vender também se alterou: grande parte dos vendedores transformou-se em gestores de CRM, e assim estão mais adaptados às compras online. O e-money é a nossa divisa: acumulo algum saldo no meu smartphone e faço as compras por wi-fi. Deixou de existir dinheiro real. No supermercado, não há carrinhos de compras, basta apontar o meu smartphone ao produto as vezes que quiser (tipo Nintendo Wii) e fica automaticamente pago. No final o que escolhi é empacotado e levam-me as compras a casa.

Mas antes de acabar, o que eu gostaria mesmo de falar era acerca do meu Wall Plasma da Samsung. Através de sensores, não preciso de lhe tocar pois é no-touch tech. O display é da Google, net 8.0. Antigamente era possível colocar umas quantas páginas abertas no PC, mas isso não me cativava muito. De há uns anos para cá a Google deu forma à internet – agora assemelha-se a um Google Maps, ou seja, eu sei onde estão os sites visualmente, e não apenas através de um motor de busca. O Wall Plasma mostra-me a internet como se estivesse a ver um país por satélite à noite, em que há zonas mais iluminadas (categorias de sites mais activos) e menos iluminadas (categorias menos activas). As instituições e empresas do ranking Google já não aparecem no topo de uma lista, mas antes ganham uma cor mais próxima do vermelho. É tão cool, pois consigo mesmo “ver” a internet!

O 4 de Julho é amanhã, data importante nos Estados Unidos, por isso a zona do Wall Plasma correspondente à categoria “comemorações” está bastante activo. Acho que vou fazer um bocado de zoom in nessa área, até que algum SEO me consiga captar a atenção à medida que “mergulho”, dando-me argumentos para ir celebrar a algum lugar em especial. A meio da viagem certamente irei ver uns anúncios da Heineken. Depois disso, acho que vou àquela mancha enorme vermelha ali no canto. É o território do Facebook. Mas vou activar o “Portugal Mode”… para me sentir em casa. Certamente vou fazer zoom in até casa do meu vizinho para lhe perguntar, por Videobook, onde vai ser o churrasco. No fim de contas, o mundo é pequeno e a minha empresa está lá sediada. No Facebook.

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