Conhecimento Low Cost

Posted on Agosto 16, 2011. Filed under: Comportamento do Consumidor | Etiquetas:, , , , , , |


No outro dia procurava na Internet um artigo científico de 1962 para aprofundar um assunto que considero bastante interessante. Não sou cientista, académico ou figura VIP. Não sou funcionário público e não conheço ninguém em bibliotecas e muito menos em bases de dados de ciência e tecnologia. Não sou político nem alguém que detenha informações chave para a defesa do país. Sou uma pessoa normal, com uma vida normal, que quis ser cientista mas a vida deu outras voltas. Mas, como um cientista, tenho a mesma necessidade de sorver conhecimento e sabedoria. O cientista, apoiado nos protocolos da sua universidade ou na capacidade financeira da empresa para a qual trabalha, pode consultar o artigo de 1962 sem grandes problemas. Ele sabe e ficará a saber mais.

Eu, que não sei, se quero ter o artigo por meios legais, tenho de pagar 30 dólares para fazer o download – que não posso dispensar. E ficarei a saber o mesmo.

Se eu quiser a sinfonia inacabada de Beethoven, posso tê-la por pouco mais que um euro. Mas se quiser ter acesso a um artigo, por vezes centenas de vezes menos prodigioso que a obra do compositor alemão, tenho de pagar um valor pouco simpático. Numa conjuntura em que todos os sectores se esforçam por diminuir os valores dos produtos e serviços que colocam no mercado, a ciência fecha-se e a propriedade intelectual ostenta-se a preços Louis Vuitton. Concordo que haja informação passível de ser transformada em vantagem competitiva na economia e nas empresas; passível de ser patenteada; passível de causar danos e por isso ser interdita ao cidadão comum. Mas a maior parte integra aquilo que se poderia chamar de pura ciência, candidata a ser divulgada sem conflitos de interesses, laterais nos seus propósitos e inofensiva na sua liberdade de circulação. Quantas vezes uma revisão científica ou um “state of the art” nos fez falta para evoluirmos no nosso conhecimento?

Apesar das devidas diferenças, a informática, a Internet e as novas tecnologias (telemóveis, netbooks, Ipads, Blu-Ray…) fazem uma concorrência aberta e voltada para o mundo: e nem por isso deixam de ser áreas com crescimentos explosivos. A oppen innovation vai mostrando que pode coexistir com a protecção dos direitos intelectuais. Algumas editoras lançam livros científicos mais pequenos (e mais baratos), mas sem retirar uma vírgula aos livros ditos profissionais. Com o croudsourcing, milhares de pessoas trabalham para criar ciência, resolver problemas ou imaginar o futuro. A World Wide Web é fervorosamente um sistema aberto, e nem por isso é menos bem sucedida que muitas outras instituições físicas. O programa SETI usa a capacidade de processamento partilhada por mais de 3 milhões de membros. O conhecimento científico só ganha se partilhado (sempre que possível). Só assim se atingirá a massa crítica para chegar mais longe. E enquanto consumidor de ciência, tenho a dizer que há muito a fazer. Consumir ciência é caro.

1962, o mesmo ano em que o presidente americano JFK instituiu o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor. Disse ele: “Consumers, by definition, include us all”. Mas uns são mais consumidores do que outros.

Primeiro publicado em | First published in:

Francisco Teixeira Blog
Consumer Behavior & Innovation Blog

http://www.consumergoodsclub.com

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