3 Lições de marketing que a minha avó me ensinou

Posted on Setembro 22, 2011. Filed under: Inspiração | Etiquetas:, , , , |


A minha avó faleceu no passado mês de Agosto com 92 anos, duas semanas antes de completar 93. Recordarei para sempre com alegria os bons momentos que me proporcionou, bem como os relatos de tempos duros e de pobreza que me transmitiu.

Não era uma pessoa fácil. Na sua aldeia natal manteve sempre um estatuto de lutadora, de pessoa que não dá a outra face às dificuldades. Sempre desconfiada, era-o para todos – embora não deixasse transparecer muito esse traço para o exterior. Muitas vezes se envolveu em quezílias para demonstrar o seu ponto de vista ou a sua razão moral. O carácter firme e por vezes inflexível granjeou-lhe amigos, inimigos e meios-termos. Poucos se metiam com ela, mesmo já com idade avançada. Podia amar-se ou odiar-se, mas nunca olhar para ela com indiferença.

Ensinou-me, com a ajuda do tempo, o que era posicionamento.

Ainda assim, o seu carácter firme tinha a particularidade de vergar, mas não partir. Nascida no final da I Grande Guerra, conseguiu superar as dificuldades impostas por tempos que, hoje, apenas nos atrevemos a imaginar. Fez muitas vezes sopa com as cascas que vizinhas mais abastadas lhe davam, o que era melhor que não ter sopa nenhuma. Nunca soube ler nem escrever, mas soube manter por perto aqueles que lhe liam as cartas. Nunca soube ver as horas num relógio, mas controlava o tempo através da posição do sol ou dos sinos da igreja. Que eu saiba, nunca chegou atrasada a nada. Reinventou-se muitas vezes ao longo da vida, especialmente nos últimos 20 anos, de forma a passar incólume às agruras que a idade nos vai acumulando no corpo.

Ensinou-me o que era a flexibilidade da marca, num mundo que agora se assume de permanente mudança.

Tinha particular atenção à imagem, especialmente em actos públicos. Punha a sua melhor vestimenta para ir à missa, a um baptizado, uma comunhão. Tinha sempre o cuidado de ir dar apoio a alguém que passasse por um momento difícil, e gostava que isso fosse sabido na aldeia. Adorava uma boa conversa e reunia à sua volta muita gente, graças a uma eloquência de falar que não vem nos livros. Entrou num grupo folclórico, cantou na igreja. Dinamizava os leilões de rua como ninguém, picando as licitações ao máximo – sabia-se logo que ela estava presente. Dar o bom dia e as boas tardes era condição sine qua non da sua existência, mesmo nas cidades grandes em que as pessoas se esqueceram do que era isso.

Ensinou-me o que era marketing pessoal, muito antes de ser falado na literatura.

 Por tudo isto e por aquilo que ficou por dizer, muito obrigado minha avó.

Primeiro publicado em | First published in:
Consumer Behavior & Innovation Blog
http://www.consumergoodsclub.com

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15 Respostas to “3 Lições de marketing que a minha avó me ensinou”

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Delicioso Francisco. Ao ler este post fizeste-me recordar a minha avó que, tal como a tua, também vivia numa aldeia, não sabia ler nem escrever, mas tinha uma enorme personalidade e não era indiferente a ninguém. Um abraço e obrigado pela partilha.

Obrigado Carlos.

Muitas vezes penso porque é que pessoas idosas não são mais chamadas para planeamento estratégico. Sim, isso mesmo. Teriam muito para ensinar a licenciados acabados de sair do forno…

Abraço

Muito Bom. 3 Lições completamente actuais. Parabéns pela forma criativa como expôs o artigo. Agência Marketing Digital – Polpa Web Marketing

Bruno,

Muito obrigado pela sua opinião.

É sempre bom saber que há quem aprecie o que escrevemos.

Cumpts,
Francisco

Que espectáculo de SENHORA! Que grande exemplo de vida. Não querendo dar um ar de saudosista, não há dúvida que antigamente as pessoas eram de outra cêpa no que diz respeito aos valores e constância. Beijinhos, Francisco. Que honra ter uma Avó assim. Minan

Obrigado, Minan

“Outra cêpa” é uma comparação justíssima.

Bjs
Francisco
http://www.consumerbehaviorportugal.com

A forma comparada é criativa e verdadeira! Não há macro sem micro.PARABÉNS.
E acrescento :
Pelo que se vai sabendo do funcionamento do nosso cérebro, que produz o pensamento como o aparelho digestivo produz a digestão, ou o aparelho respiratório… : função da sua qualidade genético/biológica e dos estímulos a que é sujeito, assim também o nosso comportamento é função da mestria com que combinamos tanto ingrediente! O Marketing Estratégico requer SABEDORIA que , ao que parece (Elkhonon Goldberg), apenas é possível adquirir com a idade : uma estrutura de padrões neuronais, a ferramenta cognitiva mais poderosa que temos ao nosso dispor e que nos garante a mestria, a competência da resposta adequada num tempo sem tempo que só um cérebro muito experimentado produz .

Penso que não tardará muito tempo para que as empresas comecem a recrutar os mais velhos, com saúde mental, por dois motivos : a forte rentabilidade da sua sabedoria em determinadas áreas de actividade e o baixo custo desses recursos no mercado actual! Depois se verá se voltam a subir a cotação!?

Concordo plenamente, Maria

Se me dói o coração é saber que, para trabalhar, ou temos até 35 anos (e somos “novos”) ou temos mais que isso e não nos aceitam no trabalho. Uma descoberta recente diz que o facto de os nossos neurónios deixarem de nascer após uma certa idade, pode não ser um facto – mas um mito. Descobriu-se que continuam a nascer, quiçá mais especializadas em estratégia que outra coisa! A minha avó (como muitas) sempre foi hábil a desviar os assuntos quando não lhe interessava. Fazia-o com uma mestria de político, mas nem ler sabia. Haverá algo mais estratégico?
Tinha uma memória extraordinária, como muitas pessoas mais novas já não têm. Mas quando algo não se encaixava nos seus padrões, ela esquecia-se (hoje rio-me com isto).
Ainda tenho de aprender muito sobre estratégia para lhe chegar aos calcanhares…

Francisco,

A descrição que fez da Sua avó fez-me recordar a minha avó. Vivia numa aldeia, provavelmente na mesma região, ficou sozinha e com três filhas aos 35 anos e a partir de aí foi uma lutadora até ao fim dos Seus dias.

A minha avó deixou-me algumas lições de marketing e algumas de gestão. Lições essas que normalmente eram sempre transmitidas por um provérbio popular…

O mais importante que aprendi foi que nada se consegue se nada se fizer. Todas as oportunidades são uma oportunidade e só aproveitando as pequenas oportunidades podemos aprender a distinguir ou identificar uma grande oportunidade.

Os Nossos avós podiam não saber ler nem escrever, não conhecer as bases do capitalismo nem saber para que serve a gestão ou o marketng. No entanto hoje quando recordamos esses valiosos ensinamentos verificamos que os conhecimentos estavam lá, a designação é que era diferente.

Cumprimentos
Luis Silva

Pois é, Luís.

As pessoas esquecem-se que o saber, por vezes, é uma questão de nomenclatura – mas está lá.
Que este país saiba valorizar mais as pessoas de idade e saibam reconhecer-lhes a experiência de vida.

Que bela surpresa encontrei aqui , enquanto navegava.

Abraços da velhota.

Caro Francisco parabéns pela sua avó e pelos valores que soube beber do seu convívio.Embora não seja velho,verifico que o que constatamos hoje, é que estamos na época do TER.Vale tudo desde que se possa TER.Ainda não perdi a convicção de que havemos de voltar a valorizar o SABER e o SER.E saber ouvir e absorver a sabedoria dos mais experientes é sem qualquer dúvida uma forma de enriquecermos o nosso SER.
Parabéns e obrigado

Infelizmente o TER é um império com muita força e muitos aliados.

Mas tal como no seu comentário, ainda não perdi a esperança de as coisas se alterarem.
Talvez esta crise tenha, entre tanta coisa má, o condão de nos colocar na ordem e valorizar-mos outros conceitos na vida.

Cumpts,
Francisco Teixeira


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