Por um novo paradigma das relações económicas

Posted on Outubro 25, 2011. Filed under: Inspiração | Etiquetas:, , , |


Muitos consideram, com razão e fundamento, que o cinema é uma forma de arte maior. Numa sala de cinema ou no conforto do lar, uma película pode ser transversal a todos os nossos sentidos e emoções, fazer-nos chorar em seco ou rir até ao limite. Paralisar-nos na cadeira ou aquecer o coração. É também, para além de todas as virtudes, uma imensa sala de aula sobre um mundo exterior – ou não, porque a ficção por vezes está à porta de nossa casa. Como muitos, também eu tenho os meus filmes de eleição, e tento tirar deles as lições que têm para dar.

Christopher McCandless tinha tudo o que um americano podia desejar aos 22 anos: um curso superior, dinheiro, amigos, uma família. Todavia, possuía também uma vontade inabalável de conhecer o mundo no seu estado puro, selvagem – o que o levou a uma longa caminhada geográfica e mental, pelo México e Estados Unidos. Destino? A natureza em estado bruto do Alasca. A história é real e Sean Penn adaptou-a ao cinema no fabuloso Into The Wild. Magistralmente realizado, o filme reporta uma fuga à sociedade e ao consumismo, aos valores materiais e à hipocrisia dos estilos de vida modernos. E isso implica, sobremaneira, a negação do dinheiro enquanto ditador da sobrevivência humana (Christopher chega a queimar o pouco dinheiro que trazia para fazer a viagem mais “leve”).

A amizade, o aperto de mão, a palavra, a partilha, a pureza e a descoberta ganham maior nitidez por detrás do nevoeiro do dinheiro. O filme ensina-nos que nem todos os consumidores se revêem no actual postulado económico, dependente de impérios financeiros e somas avultadas. E vislumbra um novo consumidor do século XXI: amigo da natureza, da harmonia psicológica, da responsabilidade ética, da sustentabilidade dos recursos.
Fará parte das obrigações dos governantes retirar valor ao dinheiro e distribuir parte desse valor por outras instâncias mais importantes. O dinheiro, enquanto moeda de troca entre os povos, está saturado e obsoleto. Troquem-se artigos por paz de espírito ou por acções sustentáveis. Ou por outras coisas de inegável valor.

Mário era um carteiro invulgar. Contratado para levar correio a um ilustre exilado, era uma pessoa de uma simplicidade espantosa, potenciada pela sua quase iliteracia, pobreza e genuinidade que lhe coubera em sorte. O seu cliente era Pablo Neruda, o poeta de vistas largas, escrita sublime e vida recatada. E no meio… bem, no meio estava o amor, que dava pelo nome de Beatrice, e que Mário desejava conquistar com coração e vontade, mas a quem faltava a arte e o engenho. O filme chama-se Il Postino (The Postman) e Michael Radford, cineasta inglês, filmou esta pérola com a mesma simplicidade com que Mário vivia a sua vida.

Também aqui o dinheiro e o poder financeiro não são o centro da vida quotidiana: o “contrato” entre Neruda e Mário pressupunha moedas de troca de outra dimensão. Neruda ensinava a arte das letras e da poesia ao carteiro; este retribuía com humildade e sentimentos puros, quase paleolíticos na sociedade de consumo actual. Depois do regresso de Neruda ao seu Chile natal, Mário decide demonstrar o seu afecto ao homem que o fez crescer. Durante dias, gravou todos os sons possíveis da sua ilha: o mar, as gaivotas, o luar, o sono amniótico de um bebé, os sinos da igreja. E demonstra uma vez mais, que o mundo das relações humanas não tem de se basear apenas no despesismo ou na compra de presentes  fashion.

Por fim, o filme da minha vida: Nuovo Cinema Paradiso. Cinema acerca do cinema, a obra de Giuseppe Tornatore ensina-nos a paixão por um métier, ao mesmo tempo que mostra a erosão do tempo sobre a sociedade e os seus padrões morais. Uma criança aprende a arte de projeccionista com o profissional da vila de Giancaldo, numa altura em que o cinema era, por aquelas bandas, o foco de distracção, de discussões, de choros e alegria dos seus habitantes. Peça central do filme, além da história tocante das suas personagens, o cinema sofre constantes mutações, tendo mesmo renascido das cinzas após um incêndio. Com o tempo, o edifício passa de fonte de distracção genuína (sempre vigiado de perto pelo padre da vila, que mandava cortar todos os momentos “pecaminosos” das películas antes de os filmes estrearem) a local pouco frequentado, servindo por fim como sala de cinema pornográfico até à altura da sua demolição. Nesse momento, o homem que foi criança-aprendiz regressa à vila, já bem na vida, realizador consagrado em Roma. Assiste ao funeral do seu professor e vê, resignado, o fim do edifício que o despertou para a vida.

Mas é uma pessoa feliz? Não. É uma pessoa movida pelo passado e pelas recordações que trouxe da vila onde nasceu. Numa cena marcante da história do cinema, o seu professor deixara-lhe uma pequena lata com um conteúdo misterioso dentro. Numa sala de projecção, sozinho, o realizador assiste ao conteúdo que estava na lata: dezenas de bocados de películas mandadas cortar pelo pároco da vila, por suposto conteúdo profano. Naquele momento, a palavra “inédito” estava gravada naquelas imagens avulsas que revelavam beijos, amor e paixões carnais. O realizador completava espaços brancos da memória, como se fosse um ser incompleto até àquele dia. Nada, mas mesmo nada, que o dinheiro pudesse comprar.

O império do dinheiro influencia biliões de consumidores em todo o mundo. Mas diferentes culturas e povos dão-lhe valorizações distintas no dia-a-dia, que o pensamento ocidental poderia ter em conta numa reformulação das teorias económicas. Os bancos de tempo, o comércio justo, o trabalho dividido pela comunidade, as transacções em género ou serviços são moedas de troca válidas para aliviar a dependência do dinheiro. Os filmes de economia precisam de novos realizadores, de vistas largas e pensamento inovador.

Primeiro publicado em | First published in:
Consumer Behavior & Innovation Blog
http://www.consumergoodsclub.com


 

 

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2 Respostas to “Por um novo paradigma das relações económicas”

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Muito bom!Parabéns

Mais um brilhante artigo Francisco. É uma reflexão que faz todo o sentido nos dias de hoje. Acredito que a ética nos negócios e na vida um dia voltarão a ser uma referência dos povos. abraço


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