Produtos Biológicos: A Insustentável Leveza do Ser

Posted on Outubro 29, 2011. Filed under: Comportamento do Consumidor | Etiquetas:, , , , |


Quando tinha cerca de 15 anos, costumava plantar num pequeno jardim alface e morangos. Na altura fiz óptimas saladas com a alface fresca e adicionava os morangos no iogurte. Afinal, eu era um visionário e não sabia… estava a fazer um tipo de agricultura biológica.

Isto porque muitos anos mais tarde a agricultura orgânica começa a florescer. Há 1.8 milhões de produtores certificados. Cada pessoa no mundo gasta, em média, cerca de 8 dólares por ano em produtos biológicos. Os dinamarqueses e os suíços são os maiores adeptos: mais de 130 dólares por ano. A Europa foi o continente que teve o maior aumento na área de cultura orgânica. Em 2009, este mercado valia 54 mil milhões de dólares em todo o mundo

Com a eco-consciência, o consumo está a mudar.

A reciclagem começa a cristalizar na mente das pessoas. Os animais são mais protegidos e as atrocidades denunciadas. Há cada vez mais vegetarianos e energias limpas. Nos terraços dos prédios fazem-se plantações caseiras.

Os produtos de agricultura orgânica encaixam perfeitamente neste movimento. A produção biológica pressupõe alimentos mais saudáveis e saborosos, resultado de culturas mais naturais, livres de químicos e que promovem a biodiversidade local e as culturas locais. Os pastos são livres de poluição, e os solos seguem o seu ciclo natural de renovação, tornando-os mais duráveis e ricos em nutrientes e minérios. Os produtos, se explorados a nível local, têm um rosto – e o consumidor pode ir ter com o produtor e ver os vegetais que há-de comer em pleno crescimento.

Todavia, há um papel de “advogado do diabo” que tem de ser feito. Uma grande franja da população gostaria de consumir alimentos e bebidas mais saudáveis, orgânicas – mas não pode. Os produtos orgânicos perdem o seu esplendor quando se vai ao porta-moedas, pois são extremamente caros para o comum dos mortais. A certificação dos produtores é longa, cara e requer cuidados especiais, o que provoca um natural aumento do preço neste tipo de produtos.
Mas também não é menos verdade que, quanto mais a moda se instala, mais os preços são inflacionados artificialmente. A questão torna-se mais complexa se nos lembrarmos que estamos a atravessar uma crise profunda. Os produtos biológicos duram menos nas prateleiras, quer as do supermercado, quer as de casa. Tal facto é relevante, pois os vendedores têm de desenvolver estratégias de venda diferentes para estes produtos, que têm de ser escoados mais rapidamente.

Os cientistas confrontam também opiniões sobre se os produtos orgânicos são realmente livres de químicos – rios, pesticidas ou adubos podem facilmente contaminar culturas biológicas. Além do mais, dado que o processo de certificação é complexo, haverá maior probabilidade de alguns produtores optarem pelo “caminho mais fácil” e não seguirem as regras todas. Há ainda o problema do transporte: dado que nem todos os pontos do globo possuem áreas de agricultura biológica, é normal que esses produtos tenham de ser trazidos de mais longe, aumentando a pegada ecológica. 

Ao contrário dos produtos não orgânicos, os biológicos apresentam pouca diversidade para o consumidor, pois os produtores sofrem maiores restrições nas culturas que podem desenvolver. Por fim, não menos importante, a agricultura biológica, pela sua essência, não pode permitir a produção em quantidade necessária para tornar a humanidade auto-suficiente. Tal como os elevadores permitiram construir prédios mais altos, também a agricultura não-orgânica permite suprir populações cada vez maiores. Isto num momento em que a FAO chama a atenção para a escassez de recursos alimentares a nível global.

Posto isto, como equilibrar a balança a favor dos produtos biológicos?

Antes de mais, devem criar-se unidades reguladoras dos preços, para evitar excessos. Outra hipótese será a de articular os produtos biológicos como uma realidade local – soa a falso eu estar a consumir bife de vaca biológico vindo da Alemanha, quando poderia ser produzido aqui. A produção local com vendas locais pode originar novas dinâmicas de consumo e modelos de negócio: porque não um tour que permita aos clientes seguir aquilo que mais tarde irá consumir? Em vez de ir ao mercado biológico comprar tomates, podíamos lá ir para dizer que queremos que sejam produzidos tomates de forma biológica; depois poderíamos visitar a nossa parcela de cultivo, e depois poderiam entregá-los em nossa casa. Esta simbiose com a produção seria útil para uma maior consciência ecológica e aprofundaria a relação produtor/comprador. Para finalizar, porque não aproveitar um cantinho de terra e ganhar o gosto pela agricultura biológica, produzindo parte do que consumimos, de forma natural?

Acho que vou voltar a plantar morangos e alfaces no jardim.

Primeiro publicado em | First published in:
Consumer Behavior & Innovation Blog
http://www.consumergoodsclub.com

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3 Respostas to “Produtos Biológicos: A Insustentável Leveza do Ser”

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Excelente reflexão Francisco!

Reflectindo também um pouco sobre o assunto, não sei se não consumiremos menos produtos biológicos do que o gostaríamos por preguiça enquanto consumidores.

Vivo numa zona do país que, apesar da proximidade com a segunda maior cidade, é marcadamente rural e acredito que alguns destes pequenos produtores aqui em redor estariam dispostos a cultivar de forma mais limpa se existisse um grupo de consumidores disposto a comprar. Talvez sob o formato de uma pequena cooperativa ou mercado…

Como dizes, não faz sentido comprar abóbora biológica vinda da Alemanha se alguém a pode plantar para mim e para outros aqui ao lado. E com benefício para todos.

Boa perspectiva, Elsa.

Até porque para dançar o tango, são precisos 2… e o consumidor também tem um papel a desempenhar aqui.
Gostei da ideia da cooperativa, essa coisa já quase esquecida com o advento das grandes superfícies.
Já agora, em muitas praças do Porto há feirinhas ao fim de semana (roupas, artesanato… Mercadinho dos Clérigos, Portobello…). Que tal a câmara facilitar as coisas e permitir que pequenos produtores vendessem também as suas frutas e legumes numa praça ou outra? Se calhar o problema nem é da Câmara, talvez falte é espírito de associativismo e parceria nos próprios produtores. Se a taxa a pagar pelo espaço fosse pequena, acredito que uns quantos vinham à cidade vender os seus produtos… biológicos!

Boa tarde
Desculpem intrometer-me mas creio que posso ajudar. Já exsitem várias feiras de produtos biológicos no Porto e em Matosinhos. Todos os Sábados estão no Parque da Cidade – Porto e na Praça da Camara de Matosinhos vários produtores que vendem diretamente.
Experimentem e digam alguma coisa. Eu já lá compro vai para 6 anos.
Rui Rosa Dias


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