Em breve, tudo estará melhor

Posted on Dezembro 7, 2011. Filed under: Futuro | Etiquetas:, , , , |


O Sr. António é uma pessoa muito simpática. Vejo-o de 15 em 15 dias. Tudo começou há cerca de 2 anos: eu, jovem, tinha acabado de casar e na aura dessa felicidade ainda fresca, surge-me um homem dos seus 47 anos, bem vestido, e muito brincalhão. Conversa fácil, o difícil era não ficarmos cativados com a sua boa disposição. Não interessava se o dia correra mal no trabalho, quando ele chegava, salvava o dia com o seu sorriso de horizontes largos e histórias insólitas do dia-a-dia. Discorria sobre política, falava de circo, dos malabarismos da economia e da inflação que minava os consumidores, tirando-lhes o tapete debaixo dos pés. Mas lá voltava à chalaça ou a um elogio maroto a um vestido mais elegante que eu trazia. Conhecia-o há pouco tempo, mas era o arquétipo daquelas pessoas que parecíamos conhecer desde sempre.

Um dia perguntou-me se estava a pensar ter filhos. Respondi:

Não sei, Sr. António. As coisas estão difíceis, vamos ver se a crise alivia. Ter um filho é complicado nestes tempos…

Disparate! A crise não é mais forte que o amor pela maternidade, menina! Agora isto está mal, mas é um ciclo: em breve tudo estará melhor, e não se arrependerá ao ver o seu filho a correr pela praia atrás de uma bola.

Mas toda a vez que chegava a casa e jantava com o meu marido, o telejornal (instrumento de tortura dos tempos modernos) entrava-nos pelos olhos dentro com notícias de insegurança e temor: a crise, as empresas a fechar, a angústia dos agricultores… e a decisão de ter um filho escondia-se atrás da minha coragem, à espera de tempos melhores.

Mas o tempo ia passando. Sentia o Sr. António mais azedo nos últimos meses. Já não vinha impecavelmente vestido, esse artifício que prolonga o orgulho e a vaidade, brotando felicidade interior. Nem o penteado imaculado se mantinha – estava “apenas” penteado. Mas rapidamente uma anedota cortava pensamentos funestos ou a sensação de que a camisa não estava devidamente passada a ferro.

Mas um dia falou acima da média e fiquei a saber que as coisas com a mulher não andavam bem. Ao pegar no jornal que trazia, reparei nas unhas algo sujas e o casaco surrado nas mangas. Para quem lhe conheceu uma camisa nova todas as quinzenas, a verdade é que agora trazia quase sempre as mesmas.

Assim se passou algum tempo quando me contou, a chorar, que por circunstâncias da vida a mulher e ele se tinham separado. Havia coisas que urgia esquecer, e a graduação de uma bebida branca ajudava. Foi o que fiz depois do trabalho.

De há dois meses para cá, algo se desmoronou na vida do Sr. António. Quando me vinha ver, o seu corpo estava presente mas a sua mente não. Sentia-o apático e dizia-me: “é a vida!” Vezes houve em que ia jurar que estava naquela linha entre a lucidez e o estado de quem bebera demais. A roupa passou a ser mais escura, a barba crescera. Tentei oferecer ajuda, mas uma anedota sem piada repelia-me. Os meus colegas contavam-me que lhe iam retirar a casa, pois já não a pagava ao banco. Duvidei, mas a verdade é que posteriormente, numa visita, reparei que não deveria ter tomado banho nos últimos dias. Perguntei se estava tudo bem, e disse-me que sim. Mas a resposta seca soou-me curta e triste demais.

Mas a vida continua – estou à espera de um filho! Entretanto, soube hoje que vou ser promovida. Irei para os serviços internos, pelo que já não atenderei mais ao público.

Trabalho num centro de emprego, e nos últimos anos, todos os dias, recebi pessoas como o Sr. António, desempregadas, que se tinham de apresentar periodicamente. Há mais de 23 milhões de desempregados na Europa.

 Nunca mais o voltei a ver.

 Primeiro publicado | First published in:

 http://www.consumergoodsclub.com

 

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