Tabaco: a meio caminho de lado nenhum

Posted on Janeiro 2, 2012. Filed under: Comportamento do Consumidor | Etiquetas:, , , , , |


Vou já esclarecer a minha situação: eu não fumo nem nunca fumei. O que não implica que seja contra quem fume – desde que esse acto não seja contra outrem (ex: fumo passivo). Posto isto, há que reconhecer que os governos ocidentais têm dado grande atenção à questão do tabaco e aos seus malefícios. A Organização Mundial de Saúde prevê que em 2020/30 o número de mortes directamente causadas por tabaco seja de 10 milhões por ano. O tabaco pode ser responsável por 1/3 dos casos de cancro existentes e em 90% dos casos está na base de cancros do pulmão. Outros cancros também lhe estão associados, mas em menor grau: laringe, faringe, colo do útero, estômago… Há também acção nefasta sobre vias respiratórias ou coração, por exemplo. Em média, um fumador crónico tem menos 10 anos de esperança de vida, comparado com  fumadores não regulares. Estes dados não são probabilidades – são certezas.

As medidas restritivas ao consumo do tabaco são napoleónicas: há publicidade que apresenta doentes com laringes abertas, o preço é aumentado constantemente, os impostos sobre os cigarros são consideráveis. Há proibições de fumar em locais públicos, fechados… Os Shopping Centers criaram espaços (cápsulas) para fumadores, algo que visto de fora se assemelha a prisões a que os erradicados sociais recorrem para matar o vício, como se fossem seres anormais que os normais vão visitar ao zoo.

A embalagem do próprio produto está carimbada com imensa publicidade aos malefícios do tabaco – “Fumar mata”. Em alguns casos, quase que a marca é omitida, como uma heresia que é necessário excomungar. Todavia, a própria marca já está em risco, se tomarmos em conta a nova proposta de lei australiana, que proíbe a apresentação de logótipos nas embalagens. As marcas serão escritas com uma fonte pré-determinada, o que é a antítese do marketing de diferenciação. Até os medicamentos, que não podem ter publicidade, são melhor tratados.

Independentemente de estas medidas terem um princípio válido, elas representam uma luta contra as tabaqueiras, tão desenfreada quanto ineficaz. Não se iludam: a indústria do tabaco continua a vencer a guerra.

A FDA nos Estados Unidos, por muito menos, bloqueia a saída para o mercado de uma incontável quantidade de novos produtos. Na Europa, também as normas de segurança são apertadas, dos detergentes da roupa aos brinquedos das crianças. Se assim é, porque é que o tabaco, sobre o qual pende enorme evidência científica sobre os seus malefícios, continua a ser comercializado? Porque é que outros produtos são liminarmente retirados do mercado e o tabaco, com escolta de publicidade de choque e roupagem a alertar para os seus malefícios, continua no mercado? O que mata é o tabaco, e não é publicitando os seus malefícios ou destruindo o marketing nas embalagens que ele deixa de matar. Ninguém liberta um criminoso e lhe coloca um rótulo “Atenção que posso matar” – como se isso reduzisse a sua perigosidade.

Há aqui uma imensa hipocrisia dos estados governantes, na medida em que passam uma mensagem de dureza face à indústria tabaqueira – mas ao mesmo tempo não fazem o que lhes compete: acabar de vez com a comercialização. É um meio termo que não conforta ninguém, e nem sempre no meio é que está a virtude. Talvez o dinheiro dos impostos faça diferença para as contas dos estados. Talvez os lobbies do tabaco sejam muito fortes. Talvez os governos sejam demasiado cobardes.

Primeiro publicado em | First published in:

www.consumergoodsclub.com

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