O Professor Obediente

Posted on Janeiro 30, 2012. Filed under: Futuro | Etiquetas:, , , , , , , , , |


Decorria o ano de 1961, quando nos Estados Unidos um conjunto de experiências na área da psicologia viriam a revelar os meandros das reacções humanas ao conceito de autoridade. O responsável por essas experiências foi um psicólogo social, que mais tarde seriam explanadas no livro “Obedience to authority: an experimental view”. Falamos do americano Stanley Milgram (1933-1984).

Os experimentos integravam 3 elementos: uma autoridade que coordenava a experiência (dava instruções), uma pessoa que assumia o papel de “professor” e outra que fazia o papel de “aluno”. Por ordem do coordenador, o “professor” ensinava pares de palavras ao “aluno” e mais tarde este ia para outra sala para que fossem testados os conhecimentos adquiridos. O professor lia uma palavra e dava ao aluno 4 opções, em que uma delas era o par correspondente à palavra que o professor leu. O aluno tinha de escolher a resposta certa através de botões, e não havia contacto ocular entre professor e aluno, pois apesar de estarem em salas adjacentes, estas eram separadas por uma parede. Se o aluno acertasse, outra palavra era dita pelo professor. Se errasse, o professor deveria aplicar um choque eléctrico ao aluno. A cada resposta errada correspondia um incremento de 15 volts nos choques, sendo a carga máxima passível de ser aplicada de… 450 volts (!)

Contrariamente às expectativas, a verdade é que mais de 60% dos “professores” infligiram a carga máxima aos seus alunos, pese o facto de se ouvirem gritos, murros na parede e lamentos que provocavam forte stress emocional nos professores. Todavia, quando questionavam o coordenador da experiência, este dava a entender que deveriam continuar a aplicar os choques – e os professores continuavam. A obediência a uma autoridade convencionada poderia atingir níveis difíceis de aceitar, e com consequências graves para os alunos, pois eram permitidos excessos absurdos. Há, no entanto, um aspecto a revelar: os “alunos” eram actores que integravam a experiência e os choques não eram reais. Dito isto, as cobaias da experiência eram os sujeitos que encarnavam o papel de professores.

Apesar de passados mais de 50 anos desde os trabalhos de Milgram, a verdade é que eles são, estranhamente, mais actuais do que nunca.

Esta dinâmica autoridade / obediência ainda hoje é usada com frequência em Marketing. Quando um médico especialista fala num anúncio acerca das propriedades de um queimador de calorias, as hipóteses de alguém o comprar são maiores – o consumidor acredita, em menor ou maior grau, que aquela pessoa é uma autoridade no assunto, logo deve saber o que diz. Quanto mais não seja, o “benefício da dúvida” ainda é um poderoso meio para vender seja o que for.

E eis que estamos em 2012, ano em que se agudiza uma crise económica corrosiva, especialmente para a Europa e os países da União Europeia. Numa altura em que as percepções e expectativas económicas são mais poderosas que os indicadores reais, a imagem dos países europeus anda ao sabor das boas ou más vibrações que vêm do outro lado do Atlântico. Durante anos reputadas como autoridades a nível das questões económicas, as agências de rating possuem actualmente uma voz com repercussões poderosas para o comportamento dos mercados. As suas avaliações fazem a diferença para bancos, países ou mesmo estruturas gigantescas como a União Europeia. Tal como um cidadão que procura um empréstimo, também os países europeus têm de demonstrar saúde financeira para o fazer nos mercados – todavia, se o seu rating for baixo, este objectivo fica mais difícil de ser cumprido. E se todos continuarem a idolatrar cegamente as agências de rating e o seu “expertise”, maior é o poder destas.

Teme-se por isso que a Europa em conjunto, e os seus países em particular, sejam professores obedientes a uma autoridade que já há muito ultrapassou o seu plafond de credibilidade. É isso que Milgram nos ensinou – a dificuldade dilacerante que é libertarmo-nos das autoridades que alimentamos durante anos. E toda a vez que infligimos um choque ao povo (chamemos-lhe medidas de austeridade), quer seja ao cidadão comum ou ao banco da esquina em que depositamos as poupanças, fica-se com um sabor amargo na boca pois esses países sabem o mal que fazem, mas o dever de obediência fala mais alto. E por mais que os alunos estudem e melhorem as suas notas, a possibilidade de levarem com a austeridade máxima mantém-se real. A obediência cega e sucessiva às agências de rating tem esta desvantagem: os países europeus aplicam choques cada vez maiores ao seu povo, mesmo que os gemidos de agonia sejam ouvidos nos parlamentos ou nos corredores de Bruxelas. Mas, tal como nas experiências, o povo está na sala ao lado, longe do olhar de quem carrega o maldito botão.

Das explicações de Milgram, devem reter-se 3 aspectos importantes para a Europa dos dias de hoje:

– Os países europeus supostamente entendem os choques como um cumprir de ordens das agências (o expert reconhecido na área), não suas – o que pode desculpabilizar os excessos, tal como Pilatos lavou as mãos num famoso julgamento popular.

– Apesar desta transferência de responsabilidades, a Europa sofre bastante neste momento, não só porque está a fazer algo contrário aos seus princípios, mas também por ser incapaz de questionar a autoridade das agências como deve ser.

– Por fim, as várias experiências de Milgram revelaram que quanto menor for a habilidade ou capacidade para tomar decisões por parte do professor (Europa), mais este será obediente à autoridade (agências). Resumindo, estamos em maus lençóis, pois a Europa tem demonstrado uma capacidade de decisão frágil (ou inexistente) em praticamente todos os dossiers internacionais.

Torna-se imperioso que a Europa dê um sinal firme às agências de rating, se for comprovado que estas exercem um poder superior àquilo que a sua competência e conhecimentos no terreno permitem. O sinal de que consegue questionar a autoridade destas e servir-se de meios complementares para ser correctamente avaliada na matéria. Talvez isso passe por uma diminuição da importância dada às agências ou pela criação de uma agência de notação financeira nova.

Uma coisa é certa: fora do laboratório, os choques são reais. E dolorosos.

Francisco Teixeira

Primeiro publicado em:

www.consumergoodsclub.com

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2 Respostas to “O Professor Obediente”

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Sem dúvida um ponto de vista interessante e real.
As massas movem-se pelas pessoas e as organizações são constituídas por pessoas…logo, a Europa é conduzida por um grupo restrito de pessoas e os governantes têm de começar a aplicar nas suas condutas e decisões algumas regras que a ciência da psicologia já estuda há muitos anos – acreditar, acreditar, acreditar!!!!! treinar, treinar, treinar – isto é, alterar o sentido das decisões para valores mais humanos através de pequenos passos, sucessivamente e repetidamente – tal como uma criança precisa de treinar o manuseamento dos atacadores nos seus sapatos, os governantes da Europa precisam de acreditar em caminhos diferentes; e seguindo passos curtos, objectivos alcançáveis e será o seu somatório que a prazo, fará toda a diferença!
Vivemos tempos de perigos imensos, porque os governantes ainda não tiveram a coragem de mudar; de inovar, e de deixarem de se focar só no dinheiro e nos ratings – pois a obediência cega a estes indicadores prejudica todos os outros que poderiam, mais tarde, conduzir à sua melhoria.

Obrigado pelo comment, Ana!

Realmente, deveria haver uma mudança de paradigma, libertando-nos (não totalmente, mas em certa medida) desses indicadores e apercebendo-nos que há outros factores que constituem e influenciam a “Big Picture”.
É como se houvesse uma miopia económica, que curiosamente tem uma importância superior para quem “vê” melhor (Estados Unidos, Alemanha…).

Há que esperar que as coisas mudem, num sentido de maior equilíbrio entre o lado humano e o funcional, e não apenas deste último.


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