Já sabes o que aconteceu?

Posted on Setembro 24, 2012. Filed under: Comunicação | Etiquetas:, , , , |


É atroz, e tem um poder de fogo aumentado de dia para dia. Começou por ser útil, depois chato e agora leva-nos à agonia. Uma espécie de repositório de coisas feias que toda a gente odeia, e que nos é colocado em frente do nariz de forma quase invasiva, como se de uma endoscopia se tratasse.

Apanha-nos desprevenidos nas ruas, na TV do iPhone, no computador e nessa Meca da perdição que é a televisão. À volta da sala, na cozinha ou na sala de jantar, suga-nos a alegria e agride a alma, impiedosamente, todos os dias, todos os dias, todos os dias. Como os instrumentos de tortura, entra-nos pela mente e pelos ossos. São viscerais na forma como nos atordoam e nos deixam à beira do esgotamento. Podemos esconder-nos dessa máquina tentacular, mas esbarramos nela no trabalho, na escola, no lazer ou no vizinho, quando alguém nos interpela:

– Já sabes o que aconteceu?

E quando damos por isso lá está o demónio, sob a forma do outro, como se os tivesse possuído e estivesse a falar através deles.

Nos EUA, já lhe detectaram há muito as manhas. No país existe uma quantidade absurda de armas de fogo na posse dos cidadãos. Em vários documentários e estudos foi estabelecida uma relação quase directa entre o aumento das armas de fogo e a cultura do medo. E a máquina de tortura é uma das responsáveis: mais medo, mais armas. Mais armas, mais mortes.

A arte e o engenho são tão premeditados que a infantaria vem logo na frente. É o início que mais dói, sob a forma de destaque ou catástrofe de última hora. Uma vez desfeita a alegria de viver, surge depois a fanfarra, lá mais para o fim. Mas nessa altura o torturado já está morto ou a caminho disso.

Como vaticinou Lippman em 1922, é muito eficaz ao mostrar, sem escrutínio, ao que é importante as pessoas estarem atentas. Esta agenda encapotada, que nos guia nas conversas de café ou nas discussões de circunstância, faz-nos hospedeiros de coisas que, se não soubéssemos, não nos tirava quinhão e permitia irmos seguindo em frente.

Como se não bastasse, possui um aliado extraordinário: a própria vítima. Um torturado deprimido, diz a ciência, tem maior propensão para – conscientemente ou não – procurar ver coisas que estão de acordo com o seu mal estar. E a besta trata de lhe dar isso em travessa dourada. Coma, há muito de onde essa veio, Sr. Consumidor.

Ainda por cima tem hora marcada. Maldito telejornal.

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4 Respostas to “Já sabes o que aconteceu?”

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Não, não sei o que aconteceu, nem quero saber. Esta seria a resposta que teríamos vontade de oferecer aos nossos interlocutores em conversa de café, nas pausas de trabalho. Fazemos o zapping à hora marcada, apenas para descortinar quais as escolhas para a abertura do desfile de histórias pesadas, bafientas, contadas sempre no mesmo tom efusivo, como se de novidade se tratasse.
Um dia, fizeram-nos crer que não poderíamos sobreviver socialmente sem que o “terceiro poder” fizesse parte das nossas vidas, das nossas conversas. Saber o que “eles” dizem e saber comentar, faz de nós pessoas mais interessantes, nasceu o culto do bitaite.
Aos jornalistas, perdemos-lhes o rasto, alguns aparecem fugazmente pelos prémios ganhos pelas Histórias que não conhecemos.
Desisto, quero ditar as minhas necessidades, o bitaite, não faz parte das mesmas.

Olá, Fátima.

É verdade. Tenho imensa pena que o telejornal actual seja um desfile de mau jornalismo. A começar pelas conclusões que são tiradas (ex: entrevista-se 3 pessoas na rua e conclui-se que afinal o homem não foi à lua). Ou as auto-promoções, em que os telejornais “forçam” peças jornalísticas que servem para que se fale do Secret Story ou coisas do género.
Na sua génese, acho que o pior mesmo é descortinar quais os critérios para considerar algo como notícia: desisti de perceber isso.
Ou os trejeitos e maneirismos dos jornalistas nas apresentações, tão mau como os árbitros que querem ser as figuras do jogo, e não os jogadores em si.
Haveria muito para contar, mas há uma coisa que é obrigatória. Ninguém quer robots a apresentarem telejornais. Mas a verdade é que a maioria dos jornalistas é claramente tendencioso ao apresentar as notícias, e isso influencia quem vê. Vê-se no tom, no esgar cínico, no olho que quase pisca. Pena.

Está tão inteligentemente documentado que quase parece um filme. É pena que seja mesmo parte da vida real… Parabéns pela vividez impressa nas palavras e pela perspicácia com que as aguça, Francisco 😉

Muito obrigado.

Cada vez mais assistimos a shows em vez de notícias.E é mesmo pena que isso seja a vida real.


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