A pedra e o povo

Posted on Fevereiro 25, 2013. Filed under: Comportamento do Consumidor | Etiquetas:, , , , |


A pedra e o povoConheço um povo na ponta Oeste europeia que vive uma tragédia grega dos tempos modernos. Quis o destino que nesse povo houvesse uma pedra gigantesca, inamovível, e inestética no meio do burgo. Do lado direito, um grupo de cidadãos tenta remover a pedra, do lado esquerdo, outro conjunto de cidadãos tenta fazer o mesmo. De extrema importância será dizer que, apesar dos esforços, a pedra não se move.

Muito incomodado anda o povo, que não quer ali a pedra, nem pouco mais ou menos. Se ela fosse mais pequena, talvez não estivesse tão insatisfeito com tudo aquilo. Mas não, a pedra é colossal e mantem-se por ali. E por mais que os ilustres cidadãos a tentem remover, nada parece surtir efeito.

A política não pode ignorar que o seu povo, aqueles que representam, são seres humanos. E por natureza são também consumidores, com tudo o que isso acarreta.

Por este prisma, os órgãos representativos – governo e oposição – estão a maltratar os seus clientes para além do admissível. Talvez seja uma questão de atitude.

 

O Governo português

Democraticamente eleito pelo povo, demonstra uma total insensibilidade em termos de Comportamento do Consumidor, e mais propriamente, da psicologia das atitudes. Todos os governos gostam que o povo tenha uma atitude positiva para com as suas políticas. As atitudes, por definição, apresentam 3 componentes interligadas: uma componente cognitiva, uma componente afectiva e uma componente comportamental, mais propriamente uma “intenção de acção”. Desta forma, as atitudes dos cidadãos para com o seu governo, num país cor de rosa, seriam mais ou menos estas:

– há uma crença de que as políticas do país são as correctas, há eficácia nas mesmas e uma coerência lógica (componente cognitiva)

– Com base neste pressuposto, os cidadãos recebem os seus representantes com carinho, emocionam-se à passagem dos seus representantes máximos e têm orgulho em lhes apertar a mão (componente afectiva)

– Como resultado, mobilizam-se para apoiar o governo, vão aos seus actos representativos sem cantar “Grandola Vila Morena” e quem sabe votam neles quando forem chamados para o fazer (componente comportamental).

Todavia não é o que se passa. A atitude do povo é negativa, e mais negativa se torna quanto maior a pedra. O que está a falhar? Várias coisas.

a) As mensagens, atributos e benefícios que o governo (ou uma marca) exprime, não são argumentos persuasores, e a argumentação eficaz é o móbil mais poderoso para mudar atitudes. Mas um governo que teve sucesso na reaproximação aos mercados não tem aí um bom argumento? Não. Um argumento é tanto mais convincente quanto mais facilmente é compreendido e quanto mais é codificado como adequado ao receptor da mensagem. Façamos o seguinte teste: vá para a rua e questione as pessoas sobre o que é o “regresso aos mercados”. Se obtiver resposta a esta pergunta, coloque uma segunda: em que é que isso tem efeito na sua vida quotidiana? Depois contem-me as respostas obtidas. Quanto mais indirecto e vago for um argumento face aos objectivos do interlocutor, pior resultados persuasivos terá – não é fácil, mesmo para os mais eruditos, entender como o regresso aos mercados lhes pode aliviar o fardo que carregam todos os dias.

Austeridade

b) Como se de uma espiral se tratasse, quanto mais fracos os argumentos forem percebidos, mais negativa é a atitude resultante. O governo tem argumentos fracos, que as constantes notícias do Instituto Nacional de Estatística e os indicadores europeus teimam em potenciar na mente dos cidadãos. Todavia, tudo isto poderia ser esbatido caso os cidadãos não tivessem um forte envolvimento em toda esta questão (a psicologia indica que argumentos e fontes de informação fracas são mais “perdoáveis” se o consumidor não estiver muito envolvido no processo de consumo). Mas sim, estão envolvidos até ao pescoço, pois são as batatas que faltam ao almoço ou a renda em atraso que os mantêm vigilantes.

c) A fonte de novidades do governo sofre de handicaps consideráveis. O Ministro das Finanças é monocórdico, frio, e altamente associado a más notícias. Psicologicamente falando, ele apenas trata de cognições. Pois bem, é difícil obter comportamentos positivos quando as atitudes que os antecedem não apresentam componente emocional. O governo comporta-se como uma máquina cujo termostato está permanentemente regulado para os zero graus. O calor aproxima, mas a postura austera mata emocionalmente.

d) Uma das componentes mais marcantes das atitudes é o facto de estas só mudarem, se nos considerarmos responsáveis pelas suas consequências. Neste campo, o povo está por sua conta, pois a mesma crise que o torna azedo para com o governo, é também a tábua de salvação deste. Cooper e Fazio (1994) comprovaram cientificamente este fenómeno. O governo não muda a sua trajetória, porque tem várias escapatórias para se convencer de que não é responsável pelos resultados do seu comportamento. A culpa é dos governos anteriores, a culpa é das mudanças que a Europa atravessa, a crise é culpa da bolha imobiliária…

e) Quanto mais um povo interioriza uma atitude negativa, sem contra-argumentos que lhes toquem, mais essa atitude se torna epidémica. Isto porque o ser humano concentra os seus recursos na aceitação das informações que vão ao encontro das suas atitudes, e no evitar daquilo que vai contra elas. Este factor é devastador por uma razão: chegará o tempo em que o objecto atitudinal (o governo) até poderá ter razão, mas o povo não vai querer ouvi-lo.

f) Uma má gestão de atitudes de um governo leva também à perda de apoio dos seus próprios militantes. Leon Festinger explicou isto com base no conceito de dissonância cognitiva. Os conhecimentos, os afectos e as intenções de comportamento das atitudes funcionam como um todo, em harmonia. Todavia, se duas ou as 3 componentes estiverem em dissonância, gera-se desconforto no consumidor. Quantas vezes acontecem situações como esta: eu devia comprar este carro porque é mais fiável, e é o que eu quero (conhecimento); no entanto este aqui, de que desconheço os atributos, dá mais nas vistas, é mais giro (afectos). Está presente uma situação de dissonância. Todavia, talvez o maior legado de Festinger não seja a dissonância em si, mas a constatação de que entre 2 componentes dissonantes, a mais fraca é a que quebra primeiro. Muitos sabem que fumar mata (conhecimento), mas continuam com a intenção de fumar (comportamento). E se continuam a fumar, é porque o conhecimento de que o tabaco mata foi diminuída na mente do consumidor. Basta que ele pense algo do género: “seja como for eu vou morrer e vou, tem de se morrer de alguma maneira”. Transpondo para a questão em apreço, os militantes pensam: Eu partilho a ideologia do PSD (conhecimento), mas não me sinto bem com o rumo disto (afetos) e vou afastar-me da sua rota por uns tempos (intenção de comportamento).

g) Por fim, mas não menos importante, há que dizer que um estado de dissonância cognitiva leva mais facilmente a uma mudança de comportamento se houver uma tensão interna, com um quê de desconforto à mistura. Ou seja, os membros do governo deveriam sentir “no corpo” os resultados das suas atitudes. Mas nisto pouco se pode fazer. Com excepção de poucos governos no mundo, há sempre um afastamento notório entre o que o governo pede, e o que o governo sente. Normalmente a dor vai para os outros. O nosso povo não vê, assim, uma liderança pelo exemplo e pela solidariedade. Quem “sente as dores” é sempre o mesmo.

A oposição

A oposição em Portugal vive dias felizes, o que a faz baixar a guarda e desresponsabilizar-se pela situação no país. É sobretudo reactiva, basta-lhe esperar sentada que as notícias no telejornal alimentam-lhe a fogueira da guerrilha. Esta situação “confortável” tem 2 consequências: engorda os opositores pois estes quase não precisam fazer nada, não treinam novas soluções para apoiar o país e; o povo, vai interiorizando que esta mesma oposição não tem nada na manga, e limita-se a observar o país a arder para no fim dizer: “nós bem avisamos.” Qualquer uma das consequências é lesiva para a oposição e, por consequência, para o país. Portugal precisa de um governo à altura e uma oposição ao mesmo nível.

a) A oposição consubstancia a sua acção na remoção – gratuita e integral – das tentativas de resolver o problema. O problema é a crise. A tentativa de resolver o problema chama-se “Troika”. Essa mesma troika impõem medidas draconianas. Aos olhos dos eleitores, a oposição dá a entender que o problema tem várias soluções possíveis, mas não apresenta nenhuma. Todos sabem que a troika é a única solução para o problema, quer seja a pior ou a melhor. Há que usá-la com engenho e viver com ela. Caso alguma vez a oposição chegue ao poder, não vai ignorar a troika, gritar “rasguemos o pacto de agressão” ou frases do género. Tal como as rosas, são espinhos que fazem parte do glamour. Esta Que-se-lixe-a troikacegueira selectiva é altamente nociva para o país, pois gera nos cidadãos a falsa esperança de que é possível remover a pedra sem sacrifícios de ninguém, como que por magia. Falando de atitudes, interessa à oposição perpetuar a crise e fazer esquecer as soluções possíveis para a mesma. Se descredibilizar toda e qualquer solução do problema, apenas resta uma governação errada e uma crise penosa (conhecimento), que leva ao enfurecimento das populações (afectos) e à queda do governo (comportamento nas urnas).

b) A oposição pratica a política do medo, e nisso não se distingue do governo. O objecto é que é diferente. O Governo diz-nos para termos medo pois a crise está incomportável; a oposição diz-nos para termos medo pois a Troika está incomportável. Todavia, há uma diferença de peso: o medo que a oposição preconiza não vem acompanhado de qualquer acção correctiva séria, nem boa nem má. Nesse sentido, a oposição sofre de artificialidade perante o povo, e não é assim que o torna mais favorável aos seus objectivos. Por isso se ouve tantas vezes: “Mais vale votar em branco, é tudo farinha do mesmo saco”.

c) Aquilo que o governo tem a menos (sensibilidade para os afectos), tem a oposição em demasia. A oposição radical usa e abusa da verborreia agressiva, do ataque pessoal em vez de argumentativo, das frases espalhafatosas para mais tarde serem vistas nas resenhas apresentadas no telejornal. As comissões de inquérito  e as intervenções no parlamento são por vezes boçais e dançam livremente no limite do insulto. A oposição portuguesa pratica retórica mesquinha e acções bloqueadoras, estilo sabotage, o equivalente a uma equipa que apenas quer destruir jogo em vez de construir golos. É contra o presidente, contra o governo, contra os patrões, contra a polícia, contra o gato da vizinha, contra quem é contra eles – ninguém escapa. Também aqui há uma questão de atitudes, e esta linha de acção não é positiva – os portugueses têm punido esta oposição radical colocando-a no fundo dos gráficos eleitorais. Quem é, indiscriminadamente, contra tudo e contra todos, acabará por matar caçadores como quem mata coelhos. Não interessa.

O povo

O povo, terceiro player desta história, é também aquele que tem o papel menos nobre. Quando em psicologia se começou a estudar o condicionamento operante, verificou-se que os ratinhos aprendiam a carregar numa alavanca para receber o seu alimento. Essa era a sua recompensa, e fazia com que os ratinhos (por reforço positivo), carregassem na alavanca.

Por outro lado, em algumas experiências, os ratinhos poderiam evitar choques eléctricos se fizessem alguns esforços (por exemplo, carregar numa alavanca ao ouvir um som). Neste caso havia reforço negativo, ou seja, uma acção quando realizada permitia não sofrer consequências negativas. Resumindo temos as seguintes combinações:

– faço um esforço e recebo algo bom.

– faço um esforço e evito algo mau.

Neste momento o povo português está a braços com uma combinação inverosímil:

– faço um esforço e recebo algo mau (todos os dias)

Quando, independentemente do que um ratinho faça, ele não vê relação entre o seu comportamento e as consequências que sofre, estamos perante uma situação gravíssima em que os ratinhos, ou entram em histeria e agressividade, ou entram em apatia e desistem. Em algumas experiências os ratinhos pura e simplesmente ficavam a um canto da caixa de experiências, levando choques em silêncio e depressão profunda. O fundo era ali, já nada mais adiantava.

Quando um povo sentir que o esforço que lhe sai do corpo, afinal, não serve para nada, é porque já não há esperança. A propósito: na fábula o povo não aparece. Pudera, está debaixo da pedra a suportá-la. E não vê ninguém a ajudá-lo.

Interessado na gestão de atitudes? clique aqui.

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10 Respostas to “A pedra e o povo”

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Pela qualidade do artigo, faz todo o sentido que o autor, se assim o desejar, o submeta a um periódico, onde o mesmo tenha um mais vasto número de leitores. Excelente trabalho. Obrigada.

Parabéns pelo artigo.

Neste momento o problema atingiu tal dimensão que a Pedra que Portugal tem, nunca mais poderá ser removida só pelos Portugueses (por causa da politica do BCE para o Euro).
Temos o futuro hipotecado até 2020 (onde ocorrem as maiores tranches de pagamento de juros e divida). Sem crescimento e sem reformas na máquina do estado iremos hipotecar
o nosso futuro de 2020-2030 (por causa da divida que é preciso entretanto contraír para pagar a própria divida, juros, salários, pensões e direitos adquiridos).
As politicas do empurra para a frente (que depois pagam) que vieram a ser implementadas desde o 25 Abril, aliadas à teia da corrupção que se instalou, mataram gerações de
portugueses de poderem viver e trabalhar dignamente em Portugal nos dias de hoje.

Em 2030, provavelmente, estaremos a falar do mesmo!

Muito obrigado!
É sempre interessante ver a parte psicológica do problema, mas não é menos importante que a crueza dos números impressiona. O “futuro hipotecado” é das expressões mais terríveis que se podem usar, mas a verdade… é que é verdade.

http://www.nationsonline.org/oneworld/country-government-gross-debt.htm

Gostaria que dessem uma olhadela neste quadro, os números falam. Regra geral, qualquer Estado, não totalitário, é deficitário. Portugal crescerá, o Estado permanecerá deficitário. Deixará de ser o Núcleo do País, a cabeça do polvo, se os governantes tiverem habilidade. O Estado não deve criar riqueza, deve criar Valor, Só um tecido empresarial forte e digno poderá criar riqueza – ganhar e reinvestir – prática um pouco esquecida entre nós.

Concordo totalmente, Fátima

É como se as pessoas esquecessem as verdadeiras funções de um estado – e realmente o estado não deve “criar” riqueza – deve sim, criar condições para que o tecido empresarial o faça.

Parabens pelo artigo Francisco. Análise claríssima. Como sempre.

Muito obrigado pelo Feedback, Carlos!

Abraço

Excelente texto. Só é pena trocar um “ouve” por um “houve”, mas é apenas um pormenor.

Apreciei particularmente a ilustração figurativa das diversas situações apresentadas. Parabéns!
Informo que vou partilhar.
Uma palavra ainda para o comentário “de Inglaterra”, cujas previsões eu, infelizmente, subscrevo.

Carlos,

Muito obrigado pelas suas palavras.

Efectivamente havia um erro, que já corrigi.Obrigado pela chamada de atenção.

E claro… obrigado pela partilha!
Abraço


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