Bem-vindos a Beirais

Posted on Agosto 8, 2013. Filed under: Comportamento do Consumidor | Etiquetas:, , , , , , , |


Bem-Vindos-a-BeiraisChama-se “Bem-vindos a Beirais” e representa uma forma de pensar como já não se pensa. Um continuum entre o rebuliço da cidade que desagua na calma bucólica de uma aldeia do Bombarral. É um tipo de bandeira dos novos rurais, um regresso a um tempo em que se fazia devagar, o passo era lento mas firme, os assuntos intimistas e simples. A rádio da aldeia pertence aos seus habitantes, por oposição à rádio que é para todos e para ninguém em simultâneo. Quando se entra no “ar”, fala-se de humanidade, histórias de argumento escorreito e de gente que se conhece. Um tempo em que o tempo não fugia, apanhávamo-lo sempre mais à frente.
Os diálogos são lentos, não porque os actores não saibam falar mais rápido, mas porque há um ritmo pitoresco a manter. A vida de cada um tem saliência nesse micro-cosmos, mesmo que seja de alguém na ponta da aldeia. Assim se esquece a completa impessoalidade entre pessoas que vivem lado a lado, num apartamento de cidade.

No 2º trimestre de 2013, 2 em cada 3 novos empregos foram-no na agricultura (equivalente a 46.000 novos empregos). O sector primário tem sido esquecido por muitos portugueses, mas é com alegria que se vê algum fortalecimento nos últimos tempos.

A série que passa na RTP1 é ilustrativa de um conceito importante em Psicologia do Consumidor: estilo de vida. De uma forma simples, estilo de vida é o modo como os consumidores utilizam os seus recursos (financeiros, tempo, esforço, interesses, motivação…) para dar forma às suas vidas. É o cerne de estratégias de branding – sendo a Timberland um exemplo quase perfeito. De facto, esta marca de vestuário e acessórios não vende outra coisa a não ser um estilo de vida de aventura, heroísmo e resistência. Uma das suas mais extraordinárias campanhas pode ser vista neste vídeo de 1 minuto.img025
Apostar em vender estilos de vida tem uma grande vantagem: vendem-se constelações de produtos e não “produtos”. Vende-se a montanha, o mar, o campo, a lama, a aldeia e tudo o que representa estes elementos. Vende-se também outra coisa: um ideal de auto-conceito. Estes dois aspectos (auto-conceito e estilo de vida) estão tão interligados que talvez sejam uma das formas mais perfeitas de vender seja o que for. Desta forma, não estamos a vender ao sabor de estatísticas impessoais – estamos a vender ao sabor do que cada um é e aquilo que faz com a sua vida. Se houver sintonia, os resultados positivos nas vendas são uma certeza.

Um caso interessante é o da Fnac “Active”, que tem apostado em brochuras específicas de tecnologia para o verão, o desporto e um estilo de vida saudável (ver imagem). No site da marca surge mesmo uma área de produtos “Desporto e Saúde”, embora se possa considerar que é pouco distintiva face a outros separadores de produtos. Um conselho seria dotar este segmento de vida própria, criando em todas as FNACs um “recanto” Active, com decoração a condizer. Organizar safaris virtuais com clientes mais pequeninos, colocar paredes de escalada, apostar na gamificação de alguns processos.

A segmentação por estilo de vida (psicográfica) é ainda pouco aproveitada em Portugal, estando os marketeers muitas vezes presos a segmentações mais tradicionais. A segmentação psicográfica inclui outros elementos além dos estilos de vida: por exemplo os valores das pessoas, as suas atitudes, interesses, perfis de personalidade…

Em Beirais está-se bem, a vida corre com calma. Não admira que um dos sponsors da série seja o Angelicalm.

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6 Respostas to “Bem-vindos a Beirais”

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Nunca vi a telenovela.

Pelos livros lidos, das viagens feitas, consigo imaginar a vida na aldeia. Aqui, ao fim e ao cabo, ouso dizer as vidas e, essas são incomparáveis.

O aldeão aborígene, de mão grossa de camadas de pele qual casca de sobreiro, olhar posto num horizonte de pensamentos térreos; Não escolheu a vida, recebeu-a de herança, nem os fados da maresia o trouxeram para a cidade. O tempo rege-se pela sua cadência de vida.

Outras vidas se chegaram à aldeia, ao sabor do “inovador” vislumbre da salubridade. A casa de frontaria irrepreensível, o interior pleno de conforto. Não vêm tentar a sorte, essa está segura, vêm à aventura de sujar as mãos na terra, e o que ela der, chegará a lojas bem decoradas, vendidos a preços proibitivos.

O desemprego, o inconformismo em se valer da boa vontade alheia, a força que os carrega para nenhures, a mesma que usam para lavrar o pão de cada dia. Serão felizes um dia, desabituar-se-ão do fato e gravata, do fato-à-macaco, das batas dos aventais, das prisões de quatro paredes, dos apitos para o almoço, das inúteis reuniões.

Portugal é geograficamente um tesouro. Da cidade, com os porta-moedas reacheados chegam, espera-os a aventura dos rios revoltos, dos caminhos de História e de histórias. Pagam por um momento de felicidade, que ninguém lhes negue tal bem-estar; falar com as gentes, dar milho ao bico do próximo almoço. Não, não sentem a seiva a correr-lhes nas veias, têm as mãos estão gretadas do kevlar, mas nem por isso se sentem diferentes.

Fátima,

Obrigado pelo comentário – é quase poesia!

Na verdade, o chamamento da terra é, em si, poesia. Um voltar ao primitivo está sempre nos sonhos do ser humano – mesmo que seja no subconsciente.

Há muitos anos que considero Portugal um lugar belíssimo, um jardim à beira mar plantado. Demorou, mas agora Portugal está a ser descoberto lá fora. Nós, que descobrimos meio mundo, demoramos uma eternidade a ser descobertos. Mas mais vale tarde do que nunca 🙂

Obrigado
Francisco Teixeira

Este programa “Frutologia” da Compal é prova de que as empresas portuguesas estão atentas às tendências do mercado.

Muito bom, e espero que o programa continue a “dar frutos”!

Francisco,
Sabes bem – talvez melhor que eu – que o problema do uso deste tipo de segmentação implica ter informação disponível, o que não acontece. Ou criar essa informação, o que não se torna difícil face ao custo de recolha na mesma.
Existem no entanto, alguns setores que fazem uso – e bem – dessa informação, como é o caso das grandes superfícies.
Há anos que defendia que a marca Pingo Doce estava condenada ao insucesso, pois a estratégia adoptada defendia passava pela recusa na utilização de cartões. É que os cartões – mais que um mero instrumento de recompensa, ou seja, de marketing relacional – é um excelente manancial em termos de fonte de informação. Ao contrário do PD, a concorrência conhece hoje, de forma individual,. cada um dos seus clientes individualmente… informações sobre, o que compra, quando compra (em que período do ano/mês), como compra, quanto gasta… são informações que levam à oferta de “produtos” específicos para cada um dos seus clientes, algo que o PD não conseguia fazer e que justifica a sua mudança de estratégia.
PM

(Paulo Moreira) suponho,

Tenho aqui um artigo (Pingo Doce vs Continente) que foca esse aspecto.
Não ter cartão é suicídio. Pior: além de o PD vir tarde, vem desenquadrado… a grande vantagem do cartão é o combustível mais em conta. Mas para isso, já há muita concorrência. E não está a ser trabalhada uma estratégia, com esse cartão, que crie engagement com os consumidores. Parece um cartão “porque sim” 😦


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